A história do sistema eleitoral brasileiro passou por uma profunda transformação na década de 1990. Durante muito tempo, votar no Brasil significava utilizar cédulas de papel e depender de um processo de apuração manual, mais demorado e sujeito a erros, rasuras e diferentes tipos de fraude.

Imagem ilustrativa sobre os 30 anos da urna eletrônica no Brasil, representando a evolução do voto em papel para o sistema eletrônico e os avanços em tecnologia, segurança, auditoria e identificação do eleitor.

A mudança começou quando o país decidiu informatizar o processo de votação e desenvolver uma solução tecnológica adaptada à realidade brasileira.

Em 2026, a urna eletrônica completa 30 anos de utilização nas eleições brasileiras. Mais do que olhar para o equipamento que conhecemos hoje, essa história ajuda a entender como nasceu o projeto, como a tecnologia evoluiu, quem fabrica as urnas e quais mecanismos são utilizados para proteger e permitir a fiscalização dos votos.

O Nascimento do Voto Eletrônico: dos “Ninjas” de São José ao Primeiro Modelo

A história da urna eletrônica começou a ganhar forma em meados da década de 1990, quando a Justiça Eleitoral avançou no projeto de informatização do voto brasileiro.

Em um período relativamente curto, especialistas de diferentes áreas participaram do desenvolvimento do equipamento e da arquitetura que daria origem ao sistema eletrônico de votação.

De acordo com a reportagem do g1 sobre a história dos ninjas da tecnologia, parte dessa equipe técnica ficou conhecida pelo apelido de “ninjas”.

O grupo reuniu especialistas ligados a instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), além de técnicos da própria Justiça Eleitoral.

Nomes como Paulo Nakaya, Mauro Hashioka, Antônio Ésio Salgado, o “Toné”, e Oswaldo Catsumi participaram desse esforço tecnológico.

O resultado foi a UE96, primeira geração de urnas eletrônicas utilizada oficialmente no Brasil. Nas eleições municipais de 1996, aproximadamente um terço do eleitorado brasileiro já teve contato com a nova forma de votação.

Era o início de uma transformação que, nos anos seguintes, alcançaria todo o país.

30 Anos de Evolução e Quatro Fabricantes

Ao longo de três décadas, foram produzidos quase 1,5 milhão de equipamentos, distribuídos em 14 modelos diferentes.

Um detalhe importante é que a urna eletrônica brasileira não funciona como um computador comum escolhido em um catálogo de uma fabricante.

O projeto, os requisitos técnicos e a arquitetura de segurança são definidos pela Justiça Eleitoral. As empresas privadas selecionadas por licitação ficam responsáveis pela fabricação dos equipamentos de acordo com essas especificações.

Conforme detalhado na notícia oficial do TSE sobre as fabricantes das urnas, quatro empresas participaram da fabricação das diferentes gerações:

  • Unisys Brasil: produziu a primeira urna eletrônica utilizada no país, a UE1996, e posteriormente o modelo UE2002.
  • Procomp Indústria Eletrônica: responsável pelos modelos UE1998 e UE2000.
  • Diebold / Diebold Procomp: produziu os modelos de 2004, 2006, 2008, 2009, 2010, 2011, 2013 e 2015.
  • Positivo Tecnologia: responsável pelos modelos mais recentes, UE2020 e UE2022.

Essa evolução mostra também algo interessante sobre tecnologia: a urna que utilizamos atualmente é resultado de várias gerações de hardware, software, testes e aperfeiçoamentos acumulados desde 1996.

Mecanismos de Proteção: Como o Voto é Protegido?

A segurança do sistema eletrônico brasileiro não depende de um único recurso. Ela é construída por meio de diferentes camadas de proteção, fiscalização e auditoria.

De acordo com a página do Senado Notícias sobre o funcionamento e a proteção da urna eletrônica, alguns dos principais mecanismos são:

  • Funcionamento offline: durante a votação, a urna não fica conectada à internet e não possui conexão Wi-Fi ou Bluetooth. Isso impede ataques remotos pela internet diretamente ao equipamento durante a votação.
  • Assinaturas digitais e hashes: os sistemas utilizados nas urnas passam por procedimentos de compilação, assinatura digital, verificação e lacração. Os hashes permitem verificar se determinado arquivo corresponde ao que foi previamente inspecionado e aprovado.
  • Registro Digital do Voto (RDV): registra os votos de maneira que preserve o sigilo do eleitor e permite que os dados sejam utilizados posteriormente em procedimentos de auditoria e recontagem.
  • Boletim de Urna (BU): ao final da votação, cada urna imprime um documento contendo o resultado daquela seção eleitoral. Isso cria uma forma de conferência independente dos resultados posteriormente totalizados.

E a fiscalização não acontece apenas no dia da eleição.

A Justiça Eleitoral detalha diferentes oportunidades de auditoria e fiscalização, realizadas antes, durante e depois da votação, com participação de diferentes instituições e entidades fiscalizadoras.

Isso inclui inspeção de códigos-fonte, Teste Público de Segurança, cerimônias de preparação das urnas, verificação de autenticidade dos sistemas, Teste de Integridade, publicação dos Boletins de Urna, RDVs e logs dos equipamentos.

Mas a urna é apenas uma parte da tecnologia utilizada nas eleições

Quando falamos em eleição digital, normalmente pensamos imediatamente na urna eletrônica. Porém, existe outra tecnologia que se tornou parte importante desse processo: a biometria.

Enquanto a urna registra a escolha feita pelo eleitor, a biometria está relacionada à identificação de quem compareceu para votar.

Essa combinação envolve tecnologias diferentes, com funções e mecanismos de segurança próprios.

Se você quiser entender melhor essa outra parte do processo, preparamos um conteúdo específico explicando como as urnas eletrônicas e a biometria são utilizadas nas eleições brasileiras, incluindo como funciona a identificação biométrica e quais tecnologias fazem parte desse sistema.

Por que Outros Países, como os EUA, Usam Papel?

Uma dúvida bastante comum é: se o Brasil utiliza urnas eletrônicas há 30 anos, por que países como os Estados Unidos continuam utilizando cédulas de papel em grande escala?

A resposta passa principalmente pelas diferenças na organização dos sistemas eleitorais.

Como explicado no artigo da ESEG sobre a votação nos Estados Unidos, o sistema norte-americano é bastante descentralizado.

Estados e administrações eleitorais locais possuem ampla autonomia sobre a forma como suas eleições são realizadas. Por isso, não existe um único modelo de votação utilizado em todo o território nacional.

Em muitas localidades, o eleitor preenche uma cédula de papel que posteriormente é processada por equipamentos de leitura óptica. Existem também máquinas eletrônicas e diferentes formas de votação antecipada e pelo correio.

O papel, nesse modelo, também possibilita a existência de um registro físico que pode ser utilizado em auditorias e recontagens.

O Brasil seguiu outro caminho.

A existência de uma Justiça Eleitoral nacional permitiu desenvolver e adotar um sistema eletrônico padronizado em grande escala, adequado às características de um país continental e com milhões de eleitores.

São duas arquiteturas eleitorais diferentes, construídas a partir de contextos institucionais, históricos e tecnológicos distintos.

Tecnologia a Serviço da Escolha do Cidadão

Trinta anos depois da primeira eleição com urnas eletrônicas, talvez a parte mais interessante dessa história não esteja apenas na máquina.

Está no que aconteceu ao redor dela.

Hardware, software, criptografia, biometria, assinaturas digitais, auditorias e infraestrutura de transmissão foram incorporados ao processo eleitoral ao longo dessas décadas.

É um exemplo muito concreto de tecnologia aplicada à vida real.

Mas nenhuma tecnologia decide o principal.

Quem decide é o eleitor.

O voto é um direito conquistado ao longo da história e uma das formas pelas quais cada cidadão participa da escolha de quem irá representá-lo nos próximos anos.

Direita, esquerda ou centro: essa escolha pertence a cada eleitor.

Por isso, mais importante do que seguir pesquisas, tendências das redes sociais ou a opinião de outras pessoas é conhecer os candidatos, pesquisar suas propostas, observar seus históricos e formar a própria convicção.

Exerça o seu direito de voto.

Escolha de acordo com suas ideias, seus valores e suas convicções.

A tecnologia pode ajudar a registrar e proteger essa escolha.

Mas a escolha continua sendo sua.

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